sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Homenagem a Eugênio Lyra na Câmara Federal

O advogado Eugênio Lyra, assassinado aos 30 anos no dia 22 de setembro de 1977, na cidade de Santa Maria da Vitória (BA), foi homenageado por Emiliano José (PT-BA) em discurso na Câmara Federal (dia 16/9). Todo ano a data é comemorada no município com atividades culturais.

Eugênio Lyra é um mártir da luta pela terra no Brasil. Dedicou sua vida à defesa dos trabalhadores rurais, dos posseiros ameaçados pela grilagem. Foi assassinado a mando de grileiros investidores e do braço político armado da ditadura militar.

Confira o discurso de Emiliano na íntegra:

Era uma quinta-feira. Dia de sol na bela cidade de Santa Maria da Vitória. 22 de setembro de 1977. O advogado Eugênio Lyra, jovem advogado de 30 anos, acabara de se barbear. Despediu-se do barbeiro e ganhou a rua. Como quem surge do nada, o pistoleiro Wilson Gusmão só fez apontar a arma para a testa do advogado e atirar. Sangue. Eugênio Lyra morreu ali mesmo, nos braços de Lúcia Lyra, sua mulher, que o acompanhava. Sangue. Sangue de um inocente, sangue de um lutador. No dia seguinte, Eugênio Lyra deveria ir a Salvador prestar depoimento na CPI da Grilagem, na Assembléia Legislativa da Bahia.

À época, houve uma repercussão imensa. No Brasil e no mundo. As investigações de então apontaram, além do pistoleiro, autor material do crime que ceifou a vida do jovem e guerreiro advogado dos oprimidos, o envolvimento do fazendeiro Valdely Rios, que teria encomendado o assassinato por 40 mil cruzeiros, juntamente com o advogado Alberto Nunes e mais Abílio Antunes, Cantídio de Oliveira e João da Costa da Silva. Tudo, segundo o que foi apurado, com a cumplicidade do próprio delegado de polícia, Eymar Portugal Sena Gomes.

No dia 22 de setembro deste ano, Santa Maria da Vitória lembra a vida de Eugênio Lyra. São atividades promovidas pela Biblioteca Eugênio Lyra, Prefeitura Municipal, Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (especialmente Coordenadoria de Cultura), Casa de Cultura Antonio Lisboa de Morais, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Comissão Pastoral da Terra e Paróquia de Santa Maria da Vitória. Certamente ecoará o grito de maldição eterna aos assassinos e aos grileiros. E o grito de celebração de uma vida inteira dedicada à justiça.

Às 9 horas da manhã, haverá passeata com a decisiva participação dos movimentos sociais. Às 18 horas, abertura oficial das atividades, com a comemoração dos 20 anos da Biblioteca Eugênio Lyra, seguida de homenagens às lutas de todos os trabalhadores da região e a Eugênio Lyra. Haverá palestras do diretor do Instituto da Águas do governo baiano, Júlio Rocha, do representante da Comissão Pastoral da Terra e do antropólogo Altair Sales.

Eugênio Lyra é um mártir da luta pela terra no Brasil. Dedicou sua vida à defesa dos trabalhadores rurais, dos posseiros ameaçados pela grilagem. Naquele momento, lutava em favor dos posseiros ameaçados, expulsos de suas glebas no Além São Francisco, Oeste da Bahia, onde se situa Santa Maria da Vitória.

Sua vida, desde muito jovem, girava em torno dessa luta. Era apaixonado pelos pequenos, pelos despossuídos. Tinha uma relação visceral com os oprimidos. A vida só tinha sentido para ele se envolvida com a terra com a terra dos posseiros, dos pequenos produtores, dos assalariados das fazendas.

Pagou com a própria vida sua fome e sede de justiça numa época em que a ditadura militar reprimia com violência os movimentos populares e quaisquer protestos contra a expulsão de trabalhadores de suas terras. Esses trabalhadores vinham engrossar as periferias das cidades, especialmente das grandes cidades. Hoje é possível sentir com mais clareza as conseqüências daquele processo.

A ditadura fizera então a opção pelos ricos, por um modelo de desenvolvimento que privilegiava a grande propriedade, os grandes investimentos agropecuários. Estes, como bárbaros, atropelavam os posseiros, destruíam suas lavouras, invadiam suas terras, conseguiam títulos falsos, usavam da violência, matavam.

Os posseiros, ocupantes centenários, pacíficos e produtivos, viam seus direitos conspurcados, desrespeitados, sob os olhares complacentes dos governos de então. Muitas vezes, o próprio governo era linha auxiliar dos agressores. A polícia, longe de proteger os pequenos, protegia e auxiliava os grileiros. E as atividades de advogados como Eugênio Lyra e Lúcia Lyra eram encaradas como atividades subversivas. Esses advogados enfrentavam uma poderosa dupla de inimigos: os grileiros investidores e o braço político armado da ditadura militar.

Antes de se radicar e se apaixonar por Santa Maria da Vitória, Eugênio Lyra e a mulher advogaram, contratados desde 1973, para a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia, dando atenção a posseiros e lavradores de Feira de Santana, Riachão do Jacuípe, Cachoeira e Santo Antônio de Jesus, cidades próximas a Salvador. Em 1976, os dois resolveram fechar o escritório da Rua Chile, no centro da capital, e rumaram para Santa Maria da Vitória, a mais de 900 quilômetros de Salvador. Pouco mais de um ano depois, Eugênio Lyra era assassinado à luz do dia.

Nasceu em 8 de janeiro de 1947. Começou a freqüentar uma escola particular com apenas cinco anos. Aos sete, ingressou na escola pública. Não era muito afeito a brincadeiras. Desde cedo interessou-se pelo estudo. Era esperto, prestativo, principalmente com as pessoas mais humildes e com os mais velhos. Aos onze anos, ingressou no Colégio Maristas de Salvador. Foi aluno aplicado e de ótimo comportamento. Aos quinze, concluiu a 4º série do ginásio. Morou em um quarto no fundo de uma pensão. Nunca foi dado a lamentações.

Fez o científico no Colégio Central, onde conheceu Lúcia, sua colega e amiga. Juntos fizeram o vestibular e continuaram os estudos na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Desta amizade nasceu o amor.

Ainda estudante, aos dezoito anos, lançou seu primeiro livro, intitulado Fogos Fátuos. Em 1968, aos 21 anos, lançou Abismos, livro, assim como o primeiro, de poesias. Formou-se em dezembro de1970. Não faltaram acenos de grileiros para que ficasse ao lado deles. Para que parasse com aquela estranha mania de ter fé nos pobres, aquela mania de defendê-los. Pra quê? Aquilo não dava futuro pra ninguém. Eugênio nunca quis vender sua consciência por 30 dinheiros. Era um homem comum. Considerava-se assim. Mas como dizia Gramsci, um homem comum com convicções profundas. Era constantemente ameaçado. Não acreditava, no entanto, que os grileiros chegassem a matá-lo.

Em Santa Maria da Vitória, terra de Francisco Biquiba de La Fuente Guarany, o mais famoso artista de carrancas do São Francisco, do romancista Osório Alves de Castro, do líder das Ligas Camponesas, Clodomir Morais, ele e Lúcia eram felizes. Gostavam das águas mansas e límpidas do Rio Corrente.

Faziam o que gostavam. Cultivavam seus valores. Amavam e defendiam a justiça. Firmes ao lado dos oprimidos. Eugênio Lyra, insista-se, não era capaz de pensar que mesmo o mais cruel dos grileiros fosse capaz de mandar matá-lo. Era um homem bom. Morreu num dia de sol, na cidade que escolhera para viver. Revelador da alma de Eugênio Lyra é um poema que ele escreveu para sua esposa. É com ele que terminamos o nosso pronunciamento.

Plantemos novas sementes,
colhamos frutos maduros,
rompamos todas as frentes
e obstáculos futuros.
Sejamos mais conscientes
e, juntos, onipotentes,
prostremos todos os muros.
Do teu, para sempre,

Eugênio - 14/04/71

Da redação, com informações de assessoria

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